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Fantasia · Portal

Travessia entre Mundos

O portal não estava escondido. Estava apenas onde ninguém tinha pensado em olhar.

I — A Descoberta

Estava atrás da lavandaria do bairro, entre dois caixotes de lixo e uma bicicleta sem rodas. Uma porta de madeira velha, com tinta a descascar, sem maçaneta visível. O tipo de coisa que se vê sem realmente ver, que o cérebro cataloga como fundo de cena e descarta.

Mas nesse dia específico, por razões que Tomás nunca conseguiu explicar completamente, ele viu.

Não havia nada de especial na porta. Exceto que, quando ele olhou diretamente para ela, a porta olhou de volta.

II — O Outro Lado

O outro lado era Lisboa. Mas uma Lisboa ligeiramente diferente — os mesmos edifícios, as mesmas ruas, mas com uma qualidade de luz que não correspondia à hora do dia, e um silêncio que não era ausência de som mas presença de uma frequência diferente.

As pessoas que passavam não o viam. Ou viam-no como se vê um reflexo — conscientes da sua existência mas sem lhe prestar atenção direta.

Tomás andou durante quarenta minutos, observando. Esta Lisboa tinha os mesmos cafés, os mesmos nomes nas ruas, a mesma geometria. Mas as conversas que ouvia eram sempre sobre o futuro, nunca sobre o passado.

III — A Escolha

A porta fechava ao pôr do sol. Tomás sabia isso — não sabia como sabia, mas sabia com a certeza das coisas que o corpo aprende antes da mente.

Ficou parado à frente dela durante longo tempo, com o sol a descer devagar sobre os telhados da sua Lisboa.

Havia uma versão deste momento em que ele ficava. Havia outra em que atravessava de volta.

Escolheu atravessar — não porque o seu mundo fosse melhor, mas porque era o único onde as pessoas podiam lembrar-se do que tinha sido. E Tomás tinha a estranha convicção de que a memória, mesmo quando dói, é sempre o lado certo de qualquer fronteira.