Júlia Gama
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Entre tantos motivos para se tornar padre, Elias tornou-se por se sentir unicamente amado por Deus. Os seus pais o desprezavam, pois para eles, era apenas uma boca a mais a ser alimentada, um desperdício de alimento, de espaço, um filho bastardo.
Elias encontrou a sua paz no seu senhor, a sua casa na igreja e a sua família do céu, Jesus, anjos e quem sabe o que mais. Tornou-se Padre aos 27 anos, Senhor Padre Elias.
Rita fora muito desejada por sua mãe, além de uma filha seria também uma companhia. Aquando do seu nascimento a sua mãe morrera. Morreu durante o parto. O seu pai, um mero cobarde alcoólatra, abandonou a menina às portas da vida.
Como nascer sozinha? O cordão umbilical cortado com uma faca enferrujada, enrolando-a em panos ensanguentados do parto, suja, assim que percebeu que a sua mulher havia morrido, agarra na criança e abandona-a na floresta, entregue à vida, ao destino e quem sabe a Deus.
O céu refletia nos seus grandes e redondos olhos azuis, ainda que entreabertos, o seu choro de recém-nascida ecoava por toda a floresta. Sozinha, sem perceber o que se passara, chorava, chorava desejando que sua mãe a pegasse e nunca mais a largasse, mas a pobre menina não sabia que nunca iria sentir os seus braços, ouvir a sua voz, sentir o seu toque ou ouvir as suas histórias. Estava perdida no meio da floresta, conhecendo apenas o cheiro materno, sem consciência.
Nada dependia da sua vida ou da sua morte, pois a vida não pára por uma mera recém-nascida abandonada. A sua única salvação eram os pequenos gritos de choro. Rita estava pronta para experimentar a vida. Faziam-se ouvir na casa de um agricultor, o senhor Raul que, por curiosidade, o nome significava "guerreiro prudente".
Raul fez parte do grupo de crianças que nasceram mortas e foram acordadas pelo sopro da vida. Teve uma infância normal, era uma criança que se destacava pela garra de estar vivo, dos únicos seres humanos que gostou de estar vivo.
No seu nascimento, o espírito de Raul já preparado, não entendia o que se estava a passar, estava preparado para o recomeço, reconheceu a sua fisionomia de um bebé pálido, entrava e saía do corpo, como se faltasse uma peça para o encaixe perfeito. No seu monólogo espiritual pensava: "o que se passa? Porque estou a ver-me dormir, pálido? Porque estou aqui e não ali? Olá? Alguém me responda! E vocês, quem são?"
Entretanto, sente um calor que lhe percorre o espírito e rapidamente sente-se puxado pela lei divina de volta para o seu novo e pequeno corpo, ouvem-se soluços de choro e de uma forma repentina, a sua mente se apaga e tudo brilha tão intensamente, agora está tudo tão vivo, agora é real, o agora acabou de começar.
Raul era, sem dúvida, uma criança abençoada, com pais saudáveis, muito trabalhadores e com muito amor para dar. Passou a sua vida no campo, aprendeu a cultivar, a viver do que a terra tinha para oferecer. Sabia de cor as alturas do ano em que as colheitas e plantações deviam ser feitas, foi sempre um rapaz muito responsável e por isso, rapidamente se tornou num bom homem.
Casou aos 27 anos com Camila, uma mulher negra de 20 anos, uma obra de arte, que brilha com a sua luz, que desafia com a sua força, que surpreende com a sua sabedoria ainda que novinha e que o conquistou com a sua beleza. Camila era quase a mulher dita perfeita, quase porque não podia ter filhos. Fora violada pelo seu irmão, que a deixou verdadeiramente magoada, impedindo-a assim de procriar.
Raul e Camila criaram um amor tão grande, tão forte e tão humilde. Ainda hoje se acredita que as suas almas se encontram a cada pôr do sol e podemos vê-los sempre que o céu se pinta de rosa e laranja, um eterno encontro.
Ophelius pertence ao mundo da magia, sendo um ser raro, uma fusão harmoniosa entre um elfo e uma fada. Habita nas entranhas mais profundas da floresta, onde o tempo parece não existir como o compreendemos e a natureza vive em equilíbrio. A sua presença é um segredo guardado pela própria floresta, visível apenas para aqueles cujos corações são tão puros que a luz dentro deles reflete a do próprio Ophelius.
A tragédia marcou os seus primeiros passos: os seus pais, Helysia e Silvas, foram cruelmente assassinados por Lissandra, uma mulher de magia negra, consumida pela raiva e pela vingança. Mas nem essa dor imensa teve o poder de corrompê-lo.
Em vez de se entregar ao ódio, Ophelius abraçou a pureza do amor, acreditando que a vida, por mais dura que seja, segue caminhos que muitas vezes estão além da compreensão mortal.
Ophelius não vê a morte como um fim, mas como uma passagem, um ciclo natural que conecta todos os seres. Para ele, o corpo físico é temporário, enquanto o espírito permanece eterno, habitando as memórias, a luz e os fragmentos do universo. Ele é um ser de bondade infinita, que irradia uma energia tão brilhante que traz calma e esperança para todos à sua volta. A sua alma é a representação física da fé e da resiliência, uma prova de que mesmo no meio do sofrimento, a essência da bondade pode prevalecer.
Cada passo que dá é acompanhado por um brilho suave, como se a própria terra florescesse sob os seus pés. Quando passa, a natureza parece suspirar em harmonia, e as criaturas que vivem ao seu redor encontram conforto na sua simples presença.
Ophelius vai além da compreensão humana.
Lissandra era uma mulher linda de olhos penetrantes, que os pais haviam prostituído desde pequena em troca de dinheiro. Ia de bares em bares, criando revolta e nojo com o ser humano. Conheceu uma fada com o nome de Helysia que tinha uma comunhão com um Elfo, Silvas, uma relação ilegal aos olhos do grandioso.
O casal partilhou com a mulher um livro que a ajudava a aprender uma magia para que se pudesse defender dos homens que a violavam constantemente sem dignidade.
Lissandra, após anos e anos de sofrimento e revolta, começara a matar os homens que a magoaram, cada morte consumia mais e mais o seu corpo e a sua mente. Após um sonho, onde alguém lhe diz um feitiço cujo este incluía o coração de uma fada e o sacrifício de alguém querido, em troca de magia para se vingar do mundo, decide matar o elfo, a fada e o seu melhor amigo Rufus, um cão que adotara da rua, era o único ser por quem tinha amor. Este feitiço consumiu a sua alma e tornou-a numa feiticeira negra consumida pelo ódio e a raiva.
O Sol brilhava, um sol quente de inverno. Era dia 11 de janeiro de 1760, o casal levantara-se à hora habitual, era apenas mais um dia na casa e na rotina dos Bellarve. Camila deveria estar em casa a preparar o jantar para o seu esposo, que passou o dia a trabalhar, no entanto, Raul chega a casa e não encontra mulher, percorre a floresta à procura da sua esposa, até que a encontra no chão, agarrada a algo, fraseando palavras num tom baixinho. As lágrimas percorriam o rosto daquela mulher, como podia ser, como é possível?
— CAMILA! — grita Raul angustiado ao ver a sua esposa naquele estado.
— Raul, meu amor... vem... — responde Camila, numa mistura de sentimentos, não sabia como reagir, se chorava, se sorria, se gritava ou agradecia, no entanto, nada fez, senão soluçar.
Raul aproxima-se e o cenário que viu, marcou o resto das suas vidas. Vira sua mulher sentada no chão, uma onda de emoções cobriu os seus corpos, ali estava, o grande presente de Deus, como podiam ser tão abençoados?
— Como? De onde? O que faz esse bebé aqui? — questiona o homem indignado.
— Andava à procura de madeira para cozinhar e de repente pareceu-me ouvir um choro de longe, quanto mais me aproximava, mais tinha a certeza que não era mais uma das minhas alucinações, então decidi caminhar, até perceber de onde vinha o som e de repente deparei-me com este milagre, um bebé! Foi deixado aqui, abandonado?! À mercê da vida?! Completamente sozinho… como é possível abandonar uma criança!
O bebé estava enrolado em panos ensanguentados, o cheiro a sangue atraía para perto os corvos barulhentos, os pombos esfomeados que não paravam de o sobrevoar.
Talvez tenha sido a misericórdia de Deus que o tenha protegido…
O maior desejo do casal tornara-se realidade, um bebé que apareceu na floresta como um presente de Deus. Levaram o bebé até casa, lavaram-no, alimentaram-no e ainda tinham esperança de que alguém viesse à procura da pequenina, uma
menina. Passaram-se dias e ninguém aparecia, tornou-se oficialmente uma Bellarve, Rita Bellarve.
Todos os anos a família frequentava como tradição e, em modo de agradecimento ao maior presente das suas vidas, a igreja. A igreja ficava no centro da vila, a mais ou menos 1 quilómetro de distância da pequena casa dos Bellarve. Então sempre que iam à vila, aproveitavam para fazer tudo o que era necessário, uma vez que não iam com regularidade. A menina tinha agora 18 anos, com 1,55m de altura, cabelos longos, ondulados da cor do mel. Tinha uma personalidade firme, não era a rapariga mais feminina à época. Adorava ver pessoas, ver como eram as vestes na vila, como eram as raparigas da sua idade. Não demonstrava interesse em relacionamentos, ainda que o seu pai a quisesse casar, pois estava na idade certa para o feito.
Naquele dia, Rita pediu aos seus pais que a deixassem passear pela vila, sozinha.
— Rita, filha, encontramo-nos às 18h junto à casa do senhor José, não te atrases que anoitece cedo! — disse o pai. (José era um ferreiro amigo de família.)
— Combinado Pai, lá estarei aqui, até logo!
— Espera Rita, toma, leva algum dinheiro contigo.
— Obrigada, Mãe, até logo.
Rita passeou por horas pela vila, encantada com tudo o que via, como sempre. O seu lindo sorriso encantava os habitantes, que a cumprimentavam com simpatia.
A vila era um lugar movimentado e cheio de vida, onde se podia encontrar de tudo um pouco, lojas, tabernas, oficinas, a igreja, casas grandes e humildes. As ruas eram estreitas e de pedra, por onde andavam pessoas, animais e carroças. O ar era perfumado pelo aroma das flores, das frutas e das especiarias, mas também pelo cheiro do fumo, do suor e do lixo. A vila tinha uma muralha que a protegia e um portão que se fechava ao anoitecer. No centro da vila havia uma praça onde se realizavam as feiras, as festas e as procissões. Neste lugar Rita observava a diversidade das cores, dos sons e dos cheiros que caracterizavam a vila. Ela sentia-se feliz e curiosa, queria conhecer mais pessoas, mais histórias, mais lugares.
A pequena adorava a vila.
Rita ao passar pela igreja é interrompida.
— Boa tarde, como está menina? Como se chama? — questiona o novo clérigo da vila.
— Boa tarde, senhor padre, como está? O meu nome é Rita.
Olhares se cruzaram, mas rapidamente são interrompidos pelo sino da igreja — já tocava 18 vezes.
— Senhor, perdão, preciso de ir — despede-se cordialmente, correndo em direção à casa do ferreiro.
Rita corre em direção à casa do ferreiro. O sol está baixo no horizonte, pintando o céu em tons de laranja e roxo. Ela tropeça numa pedra e cai, mas antes que se possa levantar, de joelhos arranhados, escuta a voz de uma pequena idosa, envolta em um manto negro, que se aproxima.
— Precisa de ajuda menina? — A voz da idosa é suave, mas firme. Rita levanta-se rapidamente, agradecendo a ajuda. A idosa sorri, os seus olhos brilhavam como uma sabedoria antiga.
— Aquilo que procurarás estará escondido no meio das árvores, entre pedras — diz a idosa — É um lugar escuro como
a noite e húmido como a água. Não questiones, querida. Um amor aparecerá e uma decisão terá de ser feita.
Rita fica confusa. Teria batido com a cabeça? Ela não entende nada do que a idosa acaba de proferir. Mas antes que possa fazer perguntas, a idosa afasta-se, desaparecendo sob a sombra das montanhas.
A pequena fica indignada sobre o que acontecera, pensativa sobre o assunto, até que finalmente, chega à casa do ferreiro. Seu pai está lá, esperando por ela.
— Estávamos preocupados — diz ele, aliviado — Finalmente chegaste!
Ao entrar na casa, Rita fica encantada com a quantidade de objetos metálicos brilhantes espalhados pela entrada, pois fazia muito tempo que não entrava na casa do ferreiro. Ao aproximar-se da forja é surpreendida pela voz de Augusto.
— Cuidado, está muito quente — adverte ele. — Quem não sabe brincar com o fogo pode queimar-se. — Rita fica ofendida com a introdução do rapaz, mas antes que possa responder, José, o amigo de seu pai, aparece.
— Rita, como estás crescida! — exclama José — Já vi que conheceste o meu filho Augusto. Não ligues ao que ele diz, ele gosta de provocar.
Pai e filho dão pequenas gargalhadas e Rita sorri incomodada.
Todos se sentam ao redor de uma mesa e compartilham um jantar. Como era habitual na altura, ambos os pais de Rita e Augusto oram em agradecimento à comida, enquanto todos
estavam de olhos fechados, Rita olha em volta, e relembra o que acontecera com a idosa.
"Será uma bruxa?" Rita questiona. "Que lugar escuro e húmido? E o que a idosa quis dizer com 'um amor aparecerá'?"
Rita sente que algo misterioso está prestes a acontecer, e ela mal pode esperar para descobrir, ainda que se questione se terá batido e não passava tudo de uma alucinação.
Ficaste com vontade de saber o que acontece a seguir?
O caminho continua — e vale cada página.