Todos os contos
VI
Aventura · Melancolia

A Viagem de uma Vida

Partiu sem bagagem. Chegou com tudo o que precisava de largar.

I — A Partida

Não havia razão específica para a terça-feira. Tinha pensado em partir numa segunda — começo de semana, começo de algo — ou numa sexta, com a sensação de fuga que as sextas proporcionam. Mas foi numa terça, sem aviso, sem planeamento, que se levantou da cadeira do escritório, apanhou o casaco, e saiu.

Não foi ao carro. Foi à estação.

O próximo comboio partia dali a oito minutos para uma cidade a três horas de distância que ela nunca tinha visitado. Comprou o bilhete sem pensar. Sentou-se no cais a olhar para os carris brilhantes e sentiu, pela primeira vez em meses, que estava a fazer exatamente o que devia.

II — O Que Se Vê da Janela

Durante três horas olhou pela janela sem pensar em nada em particular. Campos, eucaliptos, casas dispersas, uma criança a acenar para o comboio de um quintal. O mundo lá fora continuava a sua vida sem a precisar.

Era estranho como confortante isso era.

Uma senhora sentada à sua frente ofereceu-lhe uma laranja. Ela aceitou. Comeram em silêncio, cada uma com o seu pensamento, ligadas apenas pelo perfume do fruto e pelo movimento regular do comboio. Depois a senhora adormeceu e ela voltou a olhar pela janela, com a casca da laranja nas mãos.

III — A Chegada

A cidade era exatamente como não a tinha imaginado: pequena, pedregosa, com um rio que não constava nos mapas que ela conhecia. Ficou num hotel com vista para uma praça onde os pombos andavam com uma dignidade improvável.

Nessa noite escreveu uma mensagem a dizer que estava bem, que não se preocupassem, que voltava — sem dizer quando.

Depois pôs o telefone em cima da mesa, abriu a janela, ouviu a praça, e percebeu que não sentia falta de nada. Apenas presença. Apenas agora. Apenas isto.