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VII
Fantasia · Proteção

O Espectro de Guardião

Há guardiões que nunca escolheram sê-lo. E guardiões que nasceram para mais do que isso.

I — O Limiar

Ninguém se voluntaria para ser guardião. É uma condição, não uma escolha — como ter olhos castanhos ou ser destro. Manifesta-se cedo, habitualmente na infância, quando a criança começa a ver o que os outros não veem: as frestas entre o que existe e o que podia existir, os lugares onde o mundo está fino como papel.

Kael tinha seis anos quando viu o primeiro espectro. Não tinha medo. Perguntou-lhe o nome.

O espectro, surpreendido, respondeu.

II — Os Dois Lados

A função de um guardião não é combater. É equilibrar. Manter a membrana entre os dois lados suficientemente tensa para que nada passe sem permissão, suficientemente porosa para que o que precisa de passar, passe.

Kael levou anos a perceber a diferença. No início, como todos os jovens guardiões, queria barrar tudo. Construiu defesas elaboradas, sistemas de vigilância, protocolos de resposta.

Depois percebeu que estava a trabalhar contra si próprio. Que o esforço de manter tudo fora era o mesmo que o de manter tudo dentro. Que o equilíbrio não era um estado fixo mas uma dança permanente.

III — O Custo

Ser guardião custa tempo. Não no sentido metafórico — no sentido literal. Cada vez que Kael mantinha a membrana, gastava um pouco do seu próprio tempo de vida. Não sabia quanto. Ninguém sabia ao certo.

Uma vez perguntou a um guardião mais velho quanto tempo lhe restava.

O velho riu — uma risada genuína, sem amargura.

— Não sei — disse. — Nunca soube. Mas também nunca precisei de saber. O que importa não é quanto tempo tens. É o que fazes com a atenção que tens enquanto ele passa.